Ensaio sobre o fracasso

Ganhar é ótimo, é uma delicia e tudo parece ter valido a pena quando a vitória é o ponto final de uma grande história nossa, mas e quando não ganhamos, seja por falta de experiência, esforço, concentração ou porque alguém puxou você para baixo, seja por qualquer fator interno ou externo, seria o final da história um grande borrão de uma caneta vazada em cima do seu texto?

É de conhecimento comum que quando alguém ganha, outro perde, que em uma competição o que vale é competir mas no momento em que devemos parar de pensar nos resultados e focar na ação, deixamos de lado o auto-aperfeiçoamento, o aprendizado com o erro, entre outras lições que poderiam ajudar a lidar com o fracasso, ao invés disso, colocam(os) em nossas costas um saco gigante chamado “RESPONSABILIDADE”, como se fossemos obrigados a vencer para provar nossa capacidade ou tornássemos “menos” do que éramos antes de fracassar.
Não nos permitimos fracassar pela falsa sensação que todo o esforço feito até agora, foi em vão. Não “abraçamos” a derrota em prol do crescimento e amadurecimento, temos medo de decepcionar as pessoas à nossa volta, seja porque investiram em nossa caminhada ou porque dependem da gente.

Carregamos este fardo durante uma boa parte da vida, alguns por mais tempo, outros percebem que não precisam dele e se livram antes, mas os que não aceitam a derrota, não se dão o direito de errar e às vezes nem admitem o erro, porque se nunca errou na vida, não seria hoje que iria errar, certo? Não. Se fosse nos ensinado desde o início que a falha é o melhor professor que poderíamos ter, não reagiríamos de forma negativa a isso, pelo contrário, a desistência deixaria de ser um hábito.

Tanto na escola como na faculdade, exemplos de lugares que passamos grande parte da nossa vida, apresentam um sistema em que somos punidos quando não atingimos a “média”, se somos menos que 70% de um trabalho ou prova, não devemos seguir em frente, método que no meu ver precisa ser muito bem reavaliado, mas isso fica para um próximo texto. Estas convenções criam desconfortos e moldam a vida na base do medo, medo de fracassar e ser punido por isso, aumentando cada vez mais o peso sobre nossas costas.

Quanto aqueles que se livraram deste fardo, eles conseguiram enxergar além do medo, da responsabilidade de vencer e não fracassar, são pessoas que vivem o presente de maneira distinta, veem oportunidade ao invés de adversidade, abraçam a derrota e com ela renascem mais fortes mesmo não tendo certeza se vão acertar da próxima vez, mas isso realmente importa? Será que o destino realmente é mais importante que a jornada? Quem sabe o borrão de uma caneta no papel acrescente muito mais ao seu texto do que você imagina.

Slackline

Slackline.

Slackline.

Subiu na fita mais uma vez e olhou fixamente para o outro lado enquanto todas as distrações desapareciam, o coração de Matheus havia silenciado e oscilava tranquilamente com o seu balanço. Seus passos estavam em sincronia com a sua respiração, os braços se tornaram o vento que o levava cada vez mais para frente, ninguém soube dizer se existia medo em seus pensamentos, porque ele seguia atravessando a ponta de um penhasco para outro enquanto todo mundo estava calado, Matheus estava dominando a mente com o seu equilíbrio.
Sentou-se no meio da fita e admirou a vista periférica que parecia de outro plano, Matheus cruzaria para outro mundo e ninguém, nem mesmo ele, percebia sua conquista. Estar no outro lado era tudo que passava por sua cabeça, mas seu corpo aproveitava cada segundo deste desafio, ele sentia que seu lugar era ali, acima de tudo e de todos, vendo a vida em seu estado mais simples e leviano.
Matheus se levantou como um gato, e terminou de cruzar a linha tão lentamente que parecia ter sido levado por uma corrente de ar, quando se virou para nós, seus olhos fitavam a todos como se tivesse voltado de uma longa viagem, não reconheciamos ele, e nem ele se reconhecia mais, seu antigo “eu” havia ficado no início fita, talvez com medo e cheio de distrações, dando espaço para alguém que se mostrava raramente com seus amigos, alguém mais desperto e consciente que admirava a paisagem desértica chamando-nos para o outro lado do penhasco, ou para o outro lado da vida.