O boato

– Não adianta, chefe, com a velocidade que as informações correm hoje em dia, estamos perdendo cada vez mais força para espalhar boatos na internet.
– Tem razão, ainda lembro a festa que fizemos ao saber que a “corrente” da Samara alcançava os e-mails de quase todos os internautas.
– Pelo menos nós conseguimos adaptá-las ao Facebook, mas não sei por quanto tempo elas continuarão a serem passadas.
– Esse povo ta ficando esperto…
– Mas de qualquer forma, enquanto o setor de Boatos Virtuais estiver funcionando, teremos que acatar ordens, e a ordem é que façamos mais um boato, depois disso, quem sabe?
Espertos demais.

Espertos demais.

Estavam na sala de reuniões as pessoas mais experiente em criar, espalhar e adaptar boatos, todos com um grande histórico nas costas, havia o colaborador encarregado das correntes de Jesus, que criara métodos infalíveis de compartilhamento nas redes sociais, seu maior sucesso era, “Se você aceita Jesus, compartilhe”. Ao seu lado estava o analista de doenças, sua função era procurar imagens de bebês doentes, pessoas com feridas expostas, e qualquer ser humano com tumores, e ainda acham que receber 10 centavos para cada divulgação dessas fotos é muito para o seu trabalho. O chefe, que sentava na frente destes dois funcionários, era um herói de guerra, havia criado este setor quando a troca de e-mails era uma das poucas formas de se comunicar na internet, mas com o passar do tempo, suas correntes e golpes como “você é o visitante numero 1.000.000!” acabaram se tornando batidos, agora ocupa este cargo por ser o único com mais de 40 anos. Embora os boatos na internet ainda sejam espalhados, era um setor que gerava pouco lucro para a organização, e estavam pensando em substituí-lo por algum setor que foque em vendas na internet, algo que tivesse um recrutamento progressivo de pessoas, a níveis insustentáveis.
Não façam bagunça enquanto eu tiver fora, ok?

Não façam bagunça enquanto eu tiver fora, ok?

– Então, nenhum de vocês tem alguma ideia para compartilhar?
– E se criássemos um boato sobre a Dilma?
– Continue.
– Sei lá, o Renan Calheiros está como presidente interino por enquanto, acho que não vai nos prejudicar criar algo sobre ela..
De repente, o líder da dupla teve uma ideia, talvez como o último suspiro de sua carreira profissional naquele setor, ele coça o bigode com apenas três dedos enquanto força a visão para o nada, o analista esperava já uma reação agressiva do seu chefe enquanto seu colega desenvolvia sua ideia, se arrependendo aos poucos de compartilhar ela e então ele o interrompe:
– Já sei, procurem pessoas que ainda exercem a atividade de espalhar boatos à moda antiga, podem ser faxineiras, empregadas, comadres! Entrem em contato com elas e espalhem que o Bolsa Família vai acabar.
– Mas quais seriam os motivos disso acontecer?
– Não entre muito em detalhes, mas deixe claro um prazo muito curto para irem sacar pela última vez, acredite, isso vai ser grande.
Os colaboradores prontamente seguiram as suas ordens, entrando em contato com as pessoas em filas de banco, “postinhos” de saúde, créches e principalmente no Facebook. A repercussão foi tão positiva, que decidiram manter o setor, deram uma grande festa, enquanto os olhos dos superiores viraram para a área de propaganda pornográfica, anúncios como “essa porra é como anabolizante..”, era considerado muito agressivo aos olhos do internauta.

Quando Fred largou seu emprego

Foto de Carlo Barros.

Foto de Carlo Barros.

– E ae Fred, quanto tempo! Depois daquela demissão, como tem sido sua vida?

– Muito boa, devo lhe dizer, estou em um novo emprego agora..
– Ah, é mesmo? E como é lá?
– É ótimo, cara. O setor financeiro anda meio fraco, mas o RH está cada vez ligando os outros setores, inclusive fazendo parceria e sociedade com as outras pessoas. Tem tomado a minha vida!
– Mas que estranho.. não foi por tomar muito tempo da sua vida que você largou o ultimo emprego?
– Mais ou menos, o salário é muito mais alto e nem sequer se chama salário!
– Que diferente.. o dono só pode ser novo também né. Mas afinal, como se chama seu salário?
– Tem diversos nomes, podemos chamar de auto-respeito, valorização, prazer.
– Nossa que interessante, parece ser bom de trabalhar lá.
– Trabalhar também tem outros nomes.
– Hum, sério? E qual é?
– Compromisso, paixão, objetivos..
– E você pode ser seu chefe também?
– Não só posso, como assumo responsabilidade de todos os setores!
– Vai me dizer que agora você está vivendo, Fred?
– Bom, é verdade! Alguém lhe contou?
– Não não, é que eu era assim quando entrei na faculdade, não está muito novo para isso?
– Nunca se está novo demais para viver, Tales.
– Tá certo… bem, hum, vou indo lá, vamos combinar uma saída qualquer dia desses.
– Claro! Tem meu número, troquei esses dias…
– Tenho sim.
– Mas eu troquei esses dias..
– Até mais.
Tales saiu coçando sua cabeça, aquela conversa fez ele se lembrar de sua época quando entrara na faculdade, talvez ele pudesse seguir esse caminho, ou quem sabe começar baixo e trabalhar para Fred, mais aí lembrou que não tinha pego o número dele.