Caminhando e cantando e seguindo… o que mesmo? (parte 2)

Após o último texto, várias pessoas entraram em contato comigo para argumentar que era absurdo comparar o Cristianismo com o Islamismo. De acordo com elas, o Islamismo é por definição, muito mais extremista que o Cristianismo e que, portanto, o cenário hipotético do texto era inválido. Porém essa linha de pensamento sofre de uma pequena falha… ela é falsa pra caralho.

"oi?"

“oi?”

Muito bem, agora um minuto para acalmar os ânimos, permita-me explicar o porquê esse raciocínio é ilusório. O fato é que em essência, o Corão e a Bíblia são extremamente semelhantes. Ambas escrituras são consideradas parte das religiões Abraâmicas (Religiões que traçam sua origem à Abraão),  ambas falam do mesmo único Deus (Allah não é um nome, significa literalmente, Deus) e apesar de algumas pequenas e algumas grandes diferenças TEOLÓGICAS (poderia muito bem dizer mitológicas aqui) ambas pregam os mesmo valores morais, voltaremos a isso em um instante.

O Corão não reconhece a divindade de Jesus, porém o confere o status de um grande profeta, assim como Maomé, portanto um cara legal, generoso, sábio, mas não filho de Deus. Nega também a Trindade (Pai, filho e espírito santo). O Corão não concorda com a maneira como Cristo morreu e principalmente não concordam na forma de redenção. Enfim, apresentam o mesmo Deus como figuras com identidades diferentes, não tão diferente como pessoas são multifacetadas de acordo com o observador.

YEY!!!

YEY!!!

Mas NADA DISSO IMPORTA, pelo menos para esta discussão, teólogos que me perdoem mas para a população comum as diferenças são apenas “estéticas”, o centro de toda religião são seus valores morais, e tanto os valores do Cristianismo quanto os do Corão, DE ACORDO COM AS ESCRITURAS, são muito semelhantes. O fator determinante é a INTERPRETAÇÃO(último caps lock, juro). Duvidam? Analisem os seguintes valores.

1.Idolatre apenas Deus

2.Seja gentil, honorável e humilde aos pais.

3.Não seja avarento ou descuidado com suas posses.

4.Não cometa eutanásias ou matanças por misericórdia

5.Não cometa adultério

6. Não mate injustamente

7. Cuide dos órfãos

8. Mantenha suas promessas

9. Seja honesto e justo em suas interações.

10. Não seja arrogante em seus decretos e crenças.

Familiar?  De onde vem?

Nope...

Nope…

Preceitos base do Corão, não muito diferentes dos Dez Mandamentos. O que aconteceu no Irã então? Foi o monopólio (injustificado, já que de acordo com o Corão não devem haver intermediários) dos Aiatolás sobre a interpretação das escrituras. Temos uma situação ao estilo “Revolução dos bixos”, onde as leis se dobram de acordo com a vontade das pessoas no poder. “Não mate injustamente”, claramente escrito como algo para auto-defesa, foi fácil contornar, qualquer morte desejada pelos Aiatolás é automaticamente “justa”.

"Não deitarás em camas humanas... Com lençóis."

“Não deitarás em camas humanas… Com lençóis.”

Não importa a base da fé, por mais valorosa, poderosa, pacífica ou clara. Se as pessoas com o poder de mover massas manipulando seus sentimentos e sua espiritualidade possuem a alma podre. Não há “Não roubarás” que salve sua carteira, “Não cometerá falso testemunho” que salve a verdade e muito menos “Não matarás” que salve sua vida… Mas claro, isso tudo é uma situação hipotética, fruto de uma imaginação paranóica, no Cristianismo esse tipo de coisa não ocorre, a Bíblia é muito clara, e o brasileiro é muito mais esclarecido e civilizado que alguns camponeses fanáticos do outro lado do mundo…

“Pelo menos quando acontece com o décimo é cômico”

Caminhando e cantando e seguindo… o que mesmo?

Teocracia

s.f. Forma de governo em que os membros da Igreja interpretam as leis e têm autoridade tanto em assuntos cívicos quanto religiosos. A palavra vem do grego theos, que significa Deus, e kratein, que significa governar.

O Irã com certeza é o maior e mais atual exemplo de teocracia atuante entre as nações soberanas. Para entender a contextualização dessa situação é necessário analisar um pouco de história recente. O Irã até então era comandado pelo Xá Mohammad Reza Pahlevi cujo regime ditatorial oprimia fortemente a população, conforme o índice de educação crescia (detalhe importante) a população começou a questionar o regime, o que acabou gerando um aumento da brutalidade do mesmo. Assim como todo regime ditatorial, quanto mais a população se revoltava, mais extremas ficavam as atitudes do Xá para se manter no poder.

Shah_of_iran

Incrível como ditadores sempre são mais condecorados que o Rambo.

Mas o realmente interessante é que algumas destas atitudes “extremas” chegam a ser cômicas  justamente por não serem extremas aos olhos ocidentais, duas delas feitas durante a chamada Revolução Branca se sobressaem, a concessão do direito de voto às mulheres e a divisão das terras pertencentes aos líderes religiosos.

Claro que essas atitudes nasceram do desespero em se manter no poder e não da bondade do coração. Porém elas provocaram uma união muito forte das classes pobres, que além de serem grande maioria da população tendiam já tendiam ao extremismo religioso com os aiatolás, que provavelmente não estavam muito contentes com a confiscação de suas casas de praia no mar Cáspio ou com as mulheres “saindo à rua.”

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O segredo para governar o Irã está obviamente nas sobrancelhas.

Houve então a revolução iraniana de 1979, comandada pelo aiatolá alguém me explica como se pronuncia isso Ruhollah Khomeini, que derrubou o Xá do poder e transformou a ditadura em uma teocracia. Não entrarei em detalhes quanto ao que ocorreu, o filme Argo está bombando por aí e com certeza pode proporcionar muito mais entertenimento do que eu posso escrever aqui, vai que é tua Bem Affleck.

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Valeu mesmo aí Pedro!!!

Basta saber que juntamente com as promessas de redistribuição de riqueza e prosperidade entre a população veio o kit básico fanático, proibição dos costumes “ocidentais” como maquiagem, música, jogos, cinema; castigos corporais para quem praticasse sexo fora do casamento, adultério, consumo de álcool e a cereja do bolo, pena de morte para todos os apoiadores do Xá, prostitutas, homossexuais e membros de outras igrejas. Ou seja, nada de orgias regadas de whisky com energético no cinema acompanhado pela noiva maquiada, uma prostituta campeã de pôquer e um anão transexual enquanto passava o horário eleitoral gratuito do Xá. Isso mesmo, sem diversão.

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O Corão não é muito claro quanto às surras de bunda.

Enfim, passaram-se 34 anos desde que isso ocorreu e agora o Irã é um país glorioso e iluminado por Allah… pena que a lâmpada está queimada. Três décadas após o início da teocracia e o páis não apenas não andou para frente como deu alguns pulos para trás. O índice de educação, medido pelo nível de alfabetismo e escolarização, tem caído anualmente, os abismos entre as classes estão cada vez maiores e a brutalidade agora não se limita apenas a polícia secreta, mas também as polícias dos costumes que garantem que os fiéis mantenham sua fé bem abastecida. “Mas Pedro e o presidente?, o Irã teve eleições em 2005 e 2009! Com certeza os Aiatolás não estão mais em controle!”. Errado! De fato o presidente atual, marca da simpatia e Best de nosso ex-presidente Lula, Mahmoud Ahmadinejad detém o poder executivo, mas isso não importa, pois o chefe de estado atual é o Guia Supremo, um aiatolá eleito pelos próprios para um cargo vitalício cuja principal função é comandar as Forças Armadas e escolher a dedo TODOS os outros cargos, com exceção do presidente que apesar de ser escolhido por voto popular, pode ser demitido pelo Guia Supremo por qualquer motivo que lhe convir.

Temos então um país corrupto, comandado por fanáticos, e atualmente desenvolvendo armamento nuclear que está em constante conflito com outras nações por seja lá qual interpretação do Corão lhes for conveniente. Acham isso assutador? A história de terror não começou ainda. Vamos analisar as condições que favorecem a ascenção de um estado Teocrático.

– Governo Corrupto
-Dispariedade das classes sociais

– Baixo índice de educação

-Alto número de pessoas abaixo da linha de pobreza

-E por último mas não menos importante, crescente fanatismo religioso.

Parece familiar?

torcida brasileira

Eu realmente estou tentando ser discreto aqui.

Não, estou sendo paranóico, com certeza nosso Brasil querido do coração, terra do carnaval nunca…
bancada-evangelica
Teria…

Algo…
jesuscracia
Assim…?

Merda…

Sim, sejamos honestos agora, o Brasil corre um risco muito real de se tornar um estado teocrático nos próximos 20 anos. Ou até menos, a mais recente PEC 99/11 (proposta pelo Deputado Federal Jõao Campos (PSDB-GO), anotem o nome dessa alma querida) que pretende dar capacidade a organizações religiosas de propor ações de constitucionalidade e inconstitucionalidade, isso é simplesmente a maior agressão ao já, convenhamos, frágil estado laico do Brasil. Acham nossa constituição uma piada agora? (ela é), espere até seus adendos serem propostos a gritos de aleluia, glória a Deus… Para dar proporção ao problema, segue uma lista dos pouquíssimos cargos com acesso a tal poder.

I – o Presidente da República;

II – a Mesa do Senado Federal;

III – a Mesa da Câmara dos Deputados;

IV – a Mesa de Assembléia Legislativa ou da Câmara Legislativa do Distrito Federal;

V – o Governador de Estado ou do Distrito Federal;

VI – o Procurador-Geral da República;

VII – o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil;

VIII – partido político com representação no Congresso Nacional;

IX – confederação sindical ou entidade de classe de âmbito nacional.”

Esse é apenas o golpe mais grave, a bancada evangélica toma cada vez mais conta dos cargos no nosso querido plano piloto. E eles possuem todo o carisma e manobra dos Aiatolás no Irã, senão mais, nunca ouvi falar de nenhum Aiatolá pedindo a senha do cartão de crédito de um fiel na cara dura como fazem os pastores evangélicos aqui, é a famosa malandragem brasileira elevada à décima potência.
Todos sabem da polêmica do pastor Marco Feliciano(PSC) ocupando seu cargo na Comissão de Direitos Humanos e Minorias, com frases de efeito como “eu fico pela família brasileira”, bonitinho de escutar, mas nem vou entrar no mérito da validade deste argumento, mas em que diabos de lógica a “família brasileira” se encaixa como minoria? Argumentem o quanto quiser sobre a validade das opiniões do pastor (haha) mas o fato final é que sua presença no cargo é tão ridícula quanto colocar o deputado Jean Wyllis(PSOL-RJ) na comissão de Assunto Religiosos.

jean-wyllys-

ALELUIA! GLÓRIADEUS!!!!

Toda e qualquer tentativa, por menor que seja, de nivelar o campo para o estado laico,  é encontrada com desdém até pelo fiel menos fanático. Presenciamos situações assim quando tentaram retirar os símbolos religiosos do real (perda de tempo), das câmaras de deputados (boa sorte) e até mesmo das capelas dos hospitais. Fato é, o católico e talvez mais o evangélico tende a ser muito possessivo quanto aos assuntos de espiritualidade, vocês acham que eles vão dividir o espaço da capelinha com Exu se nem um ambiente neutro, de reflexão e deposto de simbologia eles aceitam?

Tentei manter um ar mais despojado durante o texto, mas não haverá revolução ou alarde como ocorreu no Irã, esse não é o modo de vida brasileiro, a mudança se dará aos poucos. Como está acontecendo agora, se essa PEC não passar agora, você acha que a bancada Evangélica vai desistir? Em quanto tempo vocês acham que teremos um pastor como Presidente da República? O resto da alcatéia de lobos do planalto já está farejando o lucro em ser crente, em quanto tempo eles serão maioria esmagadora? Teremos uma segunda reação militar quando oferecermos o pouco de resistência típica do brasileiro? Sabemos como os militares acham que estavam corretíssimos na primeira vez e que provavelmente estão doidinhos para um “1964 – parte dois: A vingança do Positivismo.” Posso estar louco e nada disso acontecer, e realmente espero que este seja o caso, mas então aquele velho pensamento passa pela mente, aquele curto, maldito e assustador pensamento…

E se…