Ser ou não ser criança?

A passagem de uma criança, onde ela deixa de ser um menino para se tornar um homem, pode muito bem ser marcada quando nos confrontamos com outra pessoa. No meu caso contra um valentão da minha antiga escola. Quando o sinal tocara para o recreio, isso era motivo de euforia, de empurrar a mesa para frente e sair gritando enquanto jogam-se os braços para cima. Mas não para mim. Era a terceira semana que o valentão da escola, Jessé, roubara meu lanche. Me sentia como um derrotado, em silêncio, todas as tardes na escola, pois Jessé ameaçava me bater ainda mais se eu contasse para alguém. Naquele dia, minha mãe fizera pão de queijo de lanche, daqueles que estalam ao ser mordidos, afundando os dentes em sua maciez, mas não estariam na minha boca, porque o valentão já estava a me observar.
“Nunca comece uma briga, mas se tiver que brigar, seja homem!”, ouvia a voz do meu pai na minha cabeça, enquanto lembrava das vezes que facilitava o lanche, ou corria até sumir do pátio, para nunca voltar para casa machucado, mas hoje… hoje tinha pão de queijo para comer! Ele se aproximava lentamente, de peito estufado, passando a língua entre os lábios secos e descascados, fitando meu lanche como se já o estivesse mastigando. Parou na minha frente, o sol escondia-se atrás de seu corpo largo, e perguntou:
– Parece que sua mãe caprichou no seu lanche hoje hein?
Não respondi. Baixei minha cabeça, abracei minha lancheira contra o peito e fiquei estático no banco do pátio. Eu não ia entregar para ele dessa vez, estava determinado a lutar pelo que me pertence.
– Que que foi? Vai negar?!
– Sai daqui cara, deixa eu comer em paz.
Devia ter ficado quieto. Jessé me olhou com raiva, sentindo-se contrariado, e jogou sua mão contra minha cabeça, caí para fora do banco, deixando cair minha lancheira aberta no chão. Ele caminhou lentamente em direção aos pães de queijo e começou a comê-los esboçando um sorriso debochado enquanto me encarava. Dava pra ver na sua boca alguns pedaços do meu lanche quando ele começou gargalhar sobre meu corpo caído no pátio. Era humilhante demais.
Lembrava novamente do que meu pai dizia, eu devia me defender, já estava com 7 anos e precisava começar a agir como homem. Enxuguei as lágrimas do meu rosto, cerrei o punho e me levantei rapidamente com a mão esquerda indo direto ao seu queixo. O impacto foi tão grande quanto a queda, todo mundo parou e olhou para onde estávamos, imaginando que o Jessé havia passado dos limites de novo, mas desta vez, um menino cabeçudo estava de pé diante do gigante caído. Demorei para processar o que havia feito, não sabia o que fazer então, pois era minha primeira briga. Jessé se levantou envergonhado, olhando a sua volta, só via crianças menores que ele dando risada. Olhou para mim, e viu a oportunidade de retomar o seu posto de valentão. Meu segundo soco atingiu o ar a sua frente, dando brecha para enroscar seu braço gordo no meu pescoço, as palavras de Jessé pareciam distantes naquele momento: “vai querer bancar o homem agora?!”. O cenário do pátio da escola aos poucos ia escurecendo enquanto eu me esperneava ao buscar um pouco de ar. Não lembro o muito o que aconteceu depois, acordei na enfermaria com o meu pai ao meu lado. Ele estava com cara de preocupado, perguntou se estava tudo bem comigo, eu disse que sim, recordando de como eu tentara defender meu lanche. Expliquei pra ele o que aconteceu e seus conselhos que passaram na minha cabeça durante o conflito.
– Defendi o que era meu, pai, como você sempre disse, agi como um homem!
O pai dava um sorriso mordido, pensando que satisfação daria para minha mãe, nós sabíamos que não teria homem o bastante para bater de frente contra ela.
– Fico feliz que tu tenhas se defendido, mas na dúvida, se a tua mãe perguntar.. tu caíste da escada, ok?
– Não acho que seria muito homem da minha parte fazer isso..
– Acho que já está na hora de tu voltares a ser criança.
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Aula de Poluição Noturna

Durante minhas aulas a tarde, um colega meu sempre perdia o foco da aula virando os olhos para cima até eles se fecharem, após dormir, fazia movimentos pequenos e rápidos como um cachorro dentro de um pesadelo enquanto dorme, eu arriscaria dizer que este rapaz era um sonhador, quando a maioria o chamava de vagabundo. Certa vez sentei ao seu lado, esperando ele entrar em “transe” para decifrar o seu possível sonho, porque aula realmente não interessava a ninguém.
O professor divagava entre Marx e Adam Smith, com uma voz tão massante que rapidamente o sonhador fecha seus olhos e entra no seu mundo com sua boca um pouco aberta, escorregou-se vagarosamente na cadeira, eu esbocei um leve sorriso porque sabia que esta aula ia ser tornar interessante daqui a pouco.
Percebi que suas pernas mexiam rapidamente, dando a entender que estivesse correndo, mas devido seu desespero eu apostaria em uma fuga. Franzia suas sobrancelhas e apertava os braços da cadeira com suas mãos, eu estava louco para dar risada ou compartilhar este momento com alguém, mas não queria acordá-lo de forma alguma. Com o passar do tempo, seu rosto começou se expressar de uma forma curiosa, balançava sua língua para cima e para baixo numa velocidade desumana com a sua boca entre-aberta, entre algumas pausas, rosnava pro meu lado, o que levou eu dar uma cotovelada em seu braço.
– Deixa eu durmir.. mas que merda..
– Otário.
A aula estava chegando ao fim, pensei comigo mesmo que ia entrar e sair dessa sala sem ter agregado nenhum conhecimento, ou pelo menos prestado atenção em alguma coisa que não fosse um sonâmbulo. O professor, como de costume, decidiu fazer a chamada, passava rapidamente de nomes quando respondiam “presente”, quando chegou a vez de Brenno ele não havia respondido nada, o que fez o professor repetir seu nome.
– Brenno? Ao menos sua cabeça está presente nesta sala?
– Não, ela está entre dois peitos em um motel na beira da estrada.