Quando Eduardo quis sair de casa.

– Bom dia.

– Bom dia.

– Não estou achando minha camiseta do Rise Against, sabe onde ela está?

– Botei fora, Eduardo.

– VOCÊ O QUÊ?

– Botei fora, ora! O que tu queria com aquele trapo?

– Aquele “trapo” tinha ido a um show do Iron Maiden, porra! Como tu pôde…

– Olha, Eduardo, para ser bem sincera, não estava mais aguentando sair com aquilo que tu chamava de camiseta sempre que íamos jantar fora, além do mais, comprei uma da mesma banda para ti que eu nunca vejo tu usar, deveria ao menos experimentar ela.

– Já cansei de te explicar, Rise Against NÃO É, Rage Against the Machine.

– Eduardo, era só uma camiseta, por quê você está agindo assim?

– Porque estou cansado de ver minhas coisas sendo jogadas fora sem o meu consentimento, eu também moro aqui e exijo voz nesta casa!

– Você devia é me agradecer por lhe dar roupas novas, se fosse outra mulher, já teria queimado todas aquelas camisetas com caveiras que tu possui.

– Isso não está dando certo, eu não tenho controle sobre as minhas coisas há muito tempo, está na hora de eu procurar um lugar para morar.

– É assim que você me agradece por cuidar de você? Depois de todos estes anos, nunca agi esperando um agradecimento, embora fosse bom receber um “obrigado” de vez em quando.

– Agradeceria se tu ficasse longe das minhas coisas, da minha vida também!

Eduardo decidiu pegar uma camiseta preta enquanto discutia pelo quarto, deixou a porta de casa rapidamente a passos largos, estava atrasado para sua aula, o que só contribuiu para sua revolta, durante o caminho jurou para si mesmo que procuraria um lugar para viver abaixo de suas próprias regras e que já era grande o suficiente para sair da casa de sua mãe.
*Nota do autor: ainda estou sem internet..

Olhos vermelhos

– Aqueles olhos vermelhos, em meio aquela escuridão, é tudo que eu consigo lembrar dele. Não sou de ficar acordado até tarde, mas naquela noite sentia que alguma coisa me atraía para dentro do bosque. O vento agitava as árvores, que tentavam fugir do campo e a lua pouco iluminava entre as nuvens. Não parecia uma boa ideia ir lá, mas acho que você me entende, morar “pra fora” pode ser muito entediante.

– Poderia me descrever o que você sentiu ao entrar no bosque?

– Senti que devia voltar para casa, mas um uivo me chamou atenção, fazendo-me mergulhar mato a dentro. Era diferente de qualquer som que um lobo pudesse emitir, era grave e ecoava pelas árvores, podia ter vindo de qualquer lugar. Segurei minha espingarda com força enquanto andava. Os uivos se tornavam frequente a medida que eu caminhava, olhei para cima e não consegui enxergar o céu que estava coberto de galhos e folhas, estava perdido em um labirinto.

– Um arbusto se mexeu de forma brusca, estava muito escuro para ter uma precisão de onde exatamente, então rapidamente, puxei o gatilho e atirei para onde minha audição me guiava, me arrependi na hora de ter ido àquele lugar. Os olhos vermelhos saiam do arbusto, e foram subindo até perceber que a criatura era mais alta que eu. Quando fui atirar novamente, arrancou-me a espingarda com uma patada e jogou-me contra uma árvore em questão de instantes.

– A besta partiu em minha direção, deixando um rastro de sangue do seu abdômen, rolei para a minha esquerda fazendo sua boca morder o tronco da árvore. Corri como um louco pela madrugada, os uivos de desespero me perseguiam e aumentavam a cada instante. Cheguei em uma parte do bosque em que o céu era visível e a lua me encarava palidamente antes de ser coberta por nuvens.

– Foi quando você viu ele se transformar em um humano?

– Exato, era um homem como eu e você, fiquei completamente sem reação, enquanto ele tentava cobrir o rosto, correndo desesperadamente. De algum modo consegui sair de lá e encontrar a sua casa, mas os uivos me acompanharam até aqui.

– Que bom que moramos perto, não? Realmente, é uma história e tanto.

– Com certeza, graças a Deus e a você que estou vivo!

Naquele momento, tirei um terço do meu bolso e beijei-o esboçando um leve sorriso de alivio, notei que seu rosto mudou de expressão rapidamente. Aquele homem olhava de forma repulsiva, coçando seu abdômen. Guardei-o rapidamente.

– Belo terço, é de prata? – Dizia fitando a janela, mais precisamente a lua cheia, que se despia das nuvens lentamente.

– Sim, por quê?

– Sou alérgico a prata.

*Nota do autor: Estou sem internet, portanto, haverá irregularidades durante esta semana.

Slackline

Slackline.

Slackline.

Subiu na fita mais uma vez e olhou fixamente para o outro lado enquanto todas as distrações desapareciam, o coração de Matheus havia silenciado e oscilava tranquilamente com o seu balanço. Seus passos estavam em sincronia com a sua respiração, os braços se tornaram o vento que o levava cada vez mais para frente, ninguém soube dizer se existia medo em seus pensamentos, porque ele seguia atravessando a ponta de um penhasco para outro enquanto todo mundo estava calado, Matheus estava dominando a mente com o seu equilíbrio.
Sentou-se no meio da fita e admirou a vista periférica que parecia de outro plano, Matheus cruzaria para outro mundo e ninguém, nem mesmo ele, percebia sua conquista. Estar no outro lado era tudo que passava por sua cabeça, mas seu corpo aproveitava cada segundo deste desafio, ele sentia que seu lugar era ali, acima de tudo e de todos, vendo a vida em seu estado mais simples e leviano.
Matheus se levantou como um gato, e terminou de cruzar a linha tão lentamente que parecia ter sido levado por uma corrente de ar, quando se virou para nós, seus olhos fitavam a todos como se tivesse voltado de uma longa viagem, não reconheciamos ele, e nem ele se reconhecia mais, seu antigo “eu” havia ficado no início fita, talvez com medo e cheio de distrações, dando espaço para alguém que se mostrava raramente com seus amigos, alguém mais desperto e consciente que admirava a paisagem desértica chamando-nos para o outro lado do penhasco, ou para o outro lado da vida.

Quando Fred largou seu emprego

Foto de Carlo Barros.

Foto de Carlo Barros.

– E ae Fred, quanto tempo! Depois daquela demissão, como tem sido sua vida?

– Muito boa, devo lhe dizer, estou em um novo emprego agora..
– Ah, é mesmo? E como é lá?
– É ótimo, cara. O setor financeiro anda meio fraco, mas o RH está cada vez ligando os outros setores, inclusive fazendo parceria e sociedade com as outras pessoas. Tem tomado a minha vida!
– Mas que estranho.. não foi por tomar muito tempo da sua vida que você largou o ultimo emprego?
– Mais ou menos, o salário é muito mais alto e nem sequer se chama salário!
– Que diferente.. o dono só pode ser novo também né. Mas afinal, como se chama seu salário?
– Tem diversos nomes, podemos chamar de auto-respeito, valorização, prazer.
– Nossa que interessante, parece ser bom de trabalhar lá.
– Trabalhar também tem outros nomes.
– Hum, sério? E qual é?
– Compromisso, paixão, objetivos..
– E você pode ser seu chefe também?
– Não só posso, como assumo responsabilidade de todos os setores!
– Vai me dizer que agora você está vivendo, Fred?
– Bom, é verdade! Alguém lhe contou?
– Não não, é que eu era assim quando entrei na faculdade, não está muito novo para isso?
– Nunca se está novo demais para viver, Tales.
– Tá certo… bem, hum, vou indo lá, vamos combinar uma saída qualquer dia desses.
– Claro! Tem meu número, troquei esses dias…
– Tenho sim.
– Mas eu troquei esses dias..
– Até mais.
Tales saiu coçando sua cabeça, aquela conversa fez ele se lembrar de sua época quando entrara na faculdade, talvez ele pudesse seguir esse caminho, ou quem sabe começar baixo e trabalhar para Fred, mais aí lembrou que não tinha pego o número dele.

Ensaio sobre a desilusão

Foto de Carlo Barros.

Foto de Carlo Barros.

A desilusão é melhor forma de conhecer a verdade nos dias de hoje. Não importa o quão sincera uma pessoa possa ser, agir ou aparentar, a desilusão vem para derrubar a máscara quando tu menos espera. Lembro de quando era criança, e me perdia nos desenhos que passavam na TV que relatava a chegada do outono, onde a gurizada corria euforicamente para se atirar cima de montes de folha caídas das árvores, brincando e nadando por elas. “Deve ser divertido”, imaginei. Quando chegou o outono, fui para o pátio de minha casa e a primeira desilusão que tive foi o fato das folhas não serem grandes, dando a sensação de serem  facilmente amassadas pelo meu peso. A segunda desilusão foi não ter juntado um monte alto bastante como era possível na TV, mas mesmo assim decidi pular, o que levou a terceira e dolorosa desilusão.

Quando adolescente, tinha a impressão de que tudo tinha duas faces, a de ser conveniente e a de ser você mesmo, engraçado como só meus amigos me mostravam a segunda, e como eu me sentia confortável compartilhando a minha com eles. Mas o mundo vestia uma máscara, e eu tinha que dançar conforme a música.
“Chega de desilusões!”, lia pelas redes sociais, entre mensagens pessoais no Messenger, depois em frases de “Quem sou eu” no Orkut e por ultimo atualizações no Facebook, como se o fim de uma ilusão fosse o momento em que acabasse o efeito de um anti-depressivo.
Aos 20 anos, sinto-me saturado de desilusões e decepções, criadas pela minha superestimação de pessoas e atitudes, esperando demais dos outros e pouco de mim, por tudo que já passei até pareço um velho de 70 anos resmungado que já vi de tudo nessa vida e que nada mais me engana.
Que ilusão!

Reencontrando Tempo

Imagem por Carlo Barros

Imagem por Carlo Barros

– Que bom te ver novamente, Tempo. Depois de tudo que aconteceu, imaginei que fosse encontrá-lo só no fim da minha vida.

Conheci o Tempo pela minha mãe, não lembro quando exatamente, mas eu era muito novo, sempre depois das aulas e das tarefas de casa, ela disse que eu teria o Tempo para brincar comigo, talvez porque ela estivesse sempre ocupada.

Lembro-me de quando era criança, brincava pra lá e pra cá entre inúmeras aventuras junto com o Tempo, porém, eu sempre tinha que esperar pacientemente sua chegada, pois você não parecia ter pressa.

Quando adolescente, perdia o Tempo várias vezes em festas e noite com os amigos, de algum modo, eu sinto que ele se vingava atrapalhando meu sono e meus estudos. Não o culpo, durante esta época, o Tempo resolvia a maioria dos meus problemas, mais especificamente os amorosos. Devia ter dado mais valor a ele.
Ao conseguir meu primeiro emprego, não via mais o Tempo, estava ocupado demais para aproveitar os dias com ele, infelizmente não notei sua falta, estava concentrado demais esperando o fim do mês para receber meu salário e depois ocupado demais gastando-o. Não o encontrava em nenhum lugar, perdi minhas companhias porque sem você eu não aproveitava nada, tudo durava o suficiente para não ser aproveitado.
– É, meu caro amigo, deitado nesta cama agora, aguardando a chegada da Morte(um valentão que nos assombrava desde a minha infância, conseguia tirar de mim qualquer pessoa que durasse muito tempo ao meu lado), percebi o quanto lhe devo desculpas. E eu pensava que tu havias me abandonado, quando na verdade eu que o abandonei. Agora vejo que não resta muito de ti também, estamos velhos demais para podermos aproveitar este breve momento.
Se eu pudesse voltar atrás, Tempo, faria valer a pena.

O ataque

“Após a quarte noite sem dormir, estava claro que alguém ou algo vinha me observando.
Decidi me virar lentamente debaixo das cobertas para ficar de frente para a janela. Eu sentia aquela presença fazendo meu corpo ficar estático e o coração disparar. Criei coragem e deixei espaço suficiente para um olho a vigiar, tentando observar a criatura. Aliviado, não encontrei, nada além de árvores dançando com o vento que levava um ar fresco para dentro do quarto.
Era seguro já se destapar, pelo menos a parte superior do corpo, confirmei mais uma vez se nada poderia me atacar ao meu redor, mas cansado e depois de tantos dias sem dormir, não resisti a fechar os olhos e tentar dormir.
Por pouco tempo.
Fui acordado por um barulho grave e constante sobre minha cabeça, entrei em pânico e decidi não me mexer para evitar qualquer movimento brusco que denunciasse eu estar acordado, sinto que fui espetado na nuca, rezei tanto para aquele momento passar, mas parecia uma eternidade. O ataque havia adormecido onde penetrava, estranhamente não senti dor, parecia que se alimentava de mim de alguma forma, Deus, que agonia.
Quando satisfeita, a agulha subia para fora lentamente, dando a entender que voltaria por mais, logo em seguida, o barulho foi se distanciando até tornar-se silêncio novamente.”

– Então Doutor, o que devo fazer?
– Vou te receitar um repelente.