O ataque

“Após a quarte noite sem dormir, estava claro que alguém ou algo vinha me observando.
Decidi me virar lentamente debaixo das cobertas para ficar de frente para a janela. Eu sentia aquela presença fazendo meu corpo ficar estático e o coração disparar. Criei coragem e deixei espaço suficiente para um olho a vigiar, tentando observar a criatura. Aliviado, não encontrei, nada além de árvores dançando com o vento que levava um ar fresco para dentro do quarto.
Era seguro já se destapar, pelo menos a parte superior do corpo, confirmei mais uma vez se nada poderia me atacar ao meu redor, mas cansado e depois de tantos dias sem dormir, não resisti a fechar os olhos e tentar dormir.
Por pouco tempo.
Fui acordado por um barulho grave e constante sobre minha cabeça, entrei em pânico e decidi não me mexer para evitar qualquer movimento brusco que denunciasse eu estar acordado, sinto que fui espetado na nuca, rezei tanto para aquele momento passar, mas parecia uma eternidade. O ataque havia adormecido onde penetrava, estranhamente não senti dor, parecia que se alimentava de mim de alguma forma, Deus, que agonia.
Quando satisfeita, a agulha subia para fora lentamente, dando a entender que voltaria por mais, logo em seguida, o barulho foi se distanciando até tornar-se silêncio novamente.”

– Então Doutor, o que devo fazer?
– Vou te receitar um repelente.

Anúncios

Aula de Poluição Noturna

Durante minhas aulas a tarde, um colega meu sempre perdia o foco da aula virando os olhos para cima até eles se fecharem, após dormir, fazia movimentos pequenos e rápidos como um cachorro dentro de um pesadelo enquanto dorme, eu arriscaria dizer que este rapaz era um sonhador, quando a maioria o chamava de vagabundo. Certa vez sentei ao seu lado, esperando ele entrar em “transe” para decifrar o seu possível sonho, porque aula realmente não interessava a ninguém.
O professor divagava entre Marx e Adam Smith, com uma voz tão massante que rapidamente o sonhador fecha seus olhos e entra no seu mundo com sua boca um pouco aberta, escorregou-se vagarosamente na cadeira, eu esbocei um leve sorriso porque sabia que esta aula ia ser tornar interessante daqui a pouco.
Percebi que suas pernas mexiam rapidamente, dando a entender que estivesse correndo, mas devido seu desespero eu apostaria em uma fuga. Franzia suas sobrancelhas e apertava os braços da cadeira com suas mãos, eu estava louco para dar risada ou compartilhar este momento com alguém, mas não queria acordá-lo de forma alguma. Com o passar do tempo, seu rosto começou se expressar de uma forma curiosa, balançava sua língua para cima e para baixo numa velocidade desumana com a sua boca entre-aberta, entre algumas pausas, rosnava pro meu lado, o que levou eu dar uma cotovelada em seu braço.
– Deixa eu durmir.. mas que merda..
– Otário.
A aula estava chegando ao fim, pensei comigo mesmo que ia entrar e sair dessa sala sem ter agregado nenhum conhecimento, ou pelo menos prestado atenção em alguma coisa que não fosse um sonâmbulo. O professor, como de costume, decidiu fazer a chamada, passava rapidamente de nomes quando respondiam “presente”, quando chegou a vez de Brenno ele não havia respondido nada, o que fez o professor repetir seu nome.
– Brenno? Ao menos sua cabeça está presente nesta sala?
– Não, ela está entre dois peitos em um motel na beira da estrada.

Ultimo dia de estágio

Imagem por Carlo Barros

Imagem por Carlo Barros

Entrei em um estado de fúria, minhas mãos tremiam enquanto eu sentia me afundar em uma areia movediça, não conseguia nem sair do lugar depois de ter ouvido o que ele havia me dito, ele não estava arrependido do que havia feito mas sentia que devia me falar, afinal de contas, eu era seu “amigo”.
– Espero que isso não atrapalhe nossa amizade Lucas, não sabia o que falar ao chefe quando ele veio me dar esta notícia, sei que era uma oportunidade que tu queria muito, mas este dinheiro também é importante para mim… – Deve ser difícil para o Jorge mesmo, afinal ele vem de carro para o trabalho e gasta metade do seu salário em cocaína e puta.
Olhei para os seus olhos sem conseguir expressar alguma reação, por quê este filho da puta não disse para o chefe que eu estava trabalhando duro para conseguir esta vaga? – Até tentei dizer para ele que tu queria bastante este cargo, que estava até vindo mais cedo e ficando mais tarde para “mostrar serviço”, mas demorou para lembrar quem tu era e quando conseguiu, lembrou da vez que havia pornografia no seu computador de trabalho..
MAS ESTE IMBECIL NÃO DISSE PARA O CHEFE QUE A PORNOGRAFIA ERA SUA?! Meus olhos dilatavam para fora da cara, ele estava se aproveitando de minha falta de iniciativa para as coisas e passara por cima de mim, tentei falar mas só o que consegui fazer foi pegar um copo d’água com as mãos trêmulas e beber rapidamente, sem me dar conta que metade havia saído pelos lados da boca.
– É claro que, apesar de tudo isso, eu sei que tu estás feliz por mim, eu fiz o que era certo, né? Tu és um grande amigo Lucas, um dia vão reconhecer quem tu és por traz desse teu jeito “quietão”, mas gostaria que dissesse alguma coisa, até porque o contrato do seu estágio não pode ser mais rescindido, então talvez esta seja nossa ultima vez que nos veremos, que que você diz?
Disse nada. Depois de 2 anos de estágio, nunca disse nada diante destas barbaridades, sou um fracassado mesmo, deixei este babaca pisar em mim para alcançar sua língua no saco do chefe durante todo este período, e mesmo depois de estar indo embora daqui não consigo falar nada para eles. Está na hora de soltar tudo de uma vez.
– Então Jorge, chega mais perto aqui para lhe dar um abraço…
Esperei ele abrir os braços, fechar os olhos enquanto sorria estupidamente em minha direção, para fazer meu punho esmagar seu nariz contra os ossos da cara. Enquanto o sangue sai grudado em meu punho, fazendo uma ligação com o que sobrara do seu nariz, gritamos em coro, porque doeu pra caralho. Mas eu queria mais.  Eu tinha muito mais a dizer a ele, e Jorge ouvira toda minha revolta penetrando qualquer orifício de seu rosto sem dizer uma palavra, prestou atenção em tudo que eu “falei” e deixei-o escorando a cabeça no bebedouro enquanto o piso branco era pintado vermelho-escuro.
Subi em direção a sala do chefe, as mãos estavam misturadas com sangue meu e de Jorge que penetrava minha camiseta branca por onde quer que eu as esfregassem, abri a porta com um chute e o encontrei de calças arriadas, vendo as pornografias que meu “amigo” saboreava quando ficava mais tarde no trabalho, fechei o seu notebook com uma batida de cima para baixo e bati em sua cara gorda e enrugada, fazendo seu rosto ir da esquerda para direita, cuspindo seus dentes amarelados de cigarro, parecendo um cometa que deixava seu rastro vermelho enquanto iam em direção do chão.

– Só vim lhe dizer que foi um prazer trabalhar para o senhor. Mas você precisa ouvir algumas coisas que falei para o Jorge também..

Rinites e “ites”

Mais uma noite em que meu sono é interrompido, mais uma vez as minhas narinas se fecham subitamente na madrugada. Ainda antes de acordar, minha boca se abre para compensar minha congestão nasal e meus sonhos que estavam em harmonia com o “caos ordenado”, parecem cair dentro de um liquidificador sem tampa na potência máxima, misturando meus pensamentos, medos e agonias e após serem jogados para fora durante aquela linha tênue entre acordar e seguir dormindo. A batalha segue incansavelmente, por fora, minha boca já seca engole o vazio junto a profundas respirações que desperta uma sede indomável, por dentro, um corre-corre desgraçado entre cenários confusos, desejos insaciáveis, e chuvas que não molham nada.
São 4 horas da manhã, e eu acordo desesperado, passando a língua pelos lábios rachados e tentando inspirar o mais forte possível, mas sem sucesso. Uso meu descongestionante e mato minha sede dando goles desesperados de água, faço um esforço para calcular quanto tempo falta para o inverno ser dominado novamente pelo calor até que me dou conta que recém é final de abril. Haja cabeça para tanto descongestionante e pesadelos.